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Ser mãe na pandemia: o que aprendi sobre solidão, rotina e pedir ajuda

Uma separação, um trabalho exigente e uma bebé de 10 meses em pleno confinamento. A minha experiência de ser mãe na pandemia — e as lições que levo para a vida.
Ser mãe em tempos de pandemia [a minha experiência]

Quando começaram a aparecer os primeiros casos de Covid-19 no mundo, o meu primeiro pensamento foi: espero sinceramente que seja um alarme falso — apesar de todo o meu lado racional me dizer que a situação vinha para ficar. Continuei a viver normalmente, na velha esperança de que, “quanto menos falarmos do assunto, menos real ele se torna”.

Não resultou. Os casos cresciam depressa e era impossível não falar do assunto.

Uma tempestade perfeita

Nessa altura eu já estava num processo de separação e à beira de um colapso emocional, a tentar gerir a falta de consistência e de prioridades da minha antiga chefe (não há aqui lapso: quero mesmo dizer chefe, e não líder). Em resumo: vida amorosa num lado, carreira noutro — dois ingredientes perfeitos para uma receita de insucesso.

Quando em março foi declarado o estado de emergência, eu já não tinha mãos a medir para tanto stress. Felizmente, faço parte de uma classe privilegiada que manteve o emprego e pôde trabalhar a partir de casa.

As primeiras semanas de confinamento

Nas primeiras duas semanas quase tive um colapso. Além de me habituar ao trabalho remoto, dispensei a senhora que trabalha cá em casa, que fica com a minha filha e trata da casa. Foi um verdadeiro pandemónio: gerir uma bebé de 10 meses para quem “mãe em casa = festa”, tratar da casa e trabalhar a um ritmo que arrisco dizer que era três vezes maior do que no escritório.

Ao fim de duas semanas vi-me obrigada a trazê-la de volta. Introduzi protocolos de entrada e saída e segui com fé.

Os dias difíceis

Foram tempos de uma solidão tremenda e de medo constante em relação a tudo. Tive dificuldade em dormir e passei semanas a ver o dia clarear — literalmente.

Tive dias em que fiquei na cama, em serviços mínimos. Dias em que vivi de pijama. Dias em que me vi embrulhada numa tristeza avassaladora. Fiz pity parties — várias! Assisti a mais lives numa semana do que a espetáculos em 28 anos e fiquei a conhecer de trás para a frente a programação da SIC Mulher. Senti-me uma péssima mãe por estar tão apática, e por sentir que a minha bebé merecia uma mãe melhor.

Defini rotinas, cumpri dois dias e mandei-as às favas nos restantes. Foi uma sucessão de tentativa e erro, tentativa e erro, tentativa e erro.

Pequenas mudanças, grande diferença

Felizmente nada dura para sempre, e comecei a ter vislumbres de que podia mudar a situação. Comecei por coisas pequenas, como não trabalhar de pijama — parece que não tem efeito nenhum, mas faz uma diferença abismal no humor. Comecei a fazer exercício de forma mais ou menos consistente, comecei a pedir ajuda aos meus, e gradualmente fui-me sentindo muito melhor.

Tive de me adaptar e readaptar milhares de vezes, e acabei por tomar decisões que hoje vejo que tiveram um impacto positivo tremendo.

Cinco lições que levo para a vida

O que aprendi nesses tempos sombrios

  1. Tudo passa. Por muita carência que exista, é importante mantermo-nos firmes nas nossas decisões.
  2. Não te cobres demasiado. Cada dia é um dia, e está tudo bem não conseguir fazer tudo o que gostarias.
  3. Reduz as redes sociais e as notícias. Numa onda de negatividade tão grande, acompanhar tudo só piora o nosso bem-estar.
  4. Pede ajuda! Muitas vezes só precisamos de ser ouvidas. Manda mensagem àquela amiga de confiança e partilha o que sentes de verdade — vais perceber que estamos todos, cada um à sua maneira, numa autêntica montanha-russa.
  5. Sente. Sente tudo. Não guardes nada — nem sentimentos, nem palavras. Chora, grita, faz um fuzuê, mas sente.

Quando a tristeza não passa

Olhando para trás, sei que muitas mães viveram (e vivem) algo parecido, com ou sem pandemia. Se a tristeza, a falta de energia ou a culpa durarem mais de duas semanas e te impedirem de viver o dia a dia, não é fraqueza — pode ser depressão, e tem tratamento. Escrevemos sobre os sinais da depressão pós-parto e onde pedir ajuda. Fala com o teu médico ou vai ao centro de saúde.

Espero que a minha experiência te ajude a olhar para a tua situação por outra perspetiva — seja de profunda gratidão, seja de consolo, para te lembrar que “como tudo, isto também passará”.

Keep up, mamas. You are doing an amazing job. 💛

Com amor, Carla

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Carla Pinto Fernandes

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